O filme Milk, de Gus Van Sant, dramatiza a vida do político e ativista gay Harvey Milk, que foi o primeiro homossexual declarado a ser eleito para um cargo público na Califórnia. A obra de 2008 foi um sucesso. Concorreu a oito estatuetas no Oscar, dando o prêmio de melhor ator para Sean Penn, ator heterossexual.
Um dos maiores fenômenos no que se refere a narrativas protagonizadas por personagens homossexuais, Brokeback Mountain teve êxito parecido. Além de ser uma sensação com o público, o filme foi responsável pelo primeiro Oscar de melhor diretor a Ang Lee e emplacou três indicações para atuação: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal e Michelle Williams. Todos heterossexuais até onde se sabe.
Historicamente, papéis do universo queer costumam trazer prestígio para quem os interpreta, em muito pela forte carga dramática que traz consigo. Grandes estúdios também buscam nomes de peso para o elenco, uma forma de atrair público e, de certa forma, higienizar a obra.
Contam nossas histórias e, ao mesmo tempo, marginalizam profissionais que de fato são LGBTQIA+. Isso levanta a questão: atores heterossexuais podem interpretar personagens gays?
Resposta bem curta: sim. Todavia, a pergunta certa é outra: atores heterossexuais deveriam interpretar personagens gays?
Bons artistas buscam papéis onde são desafiados e estão certos em querer interpretar uma gama maior de personagens e não ficarem presos a determinados arquétipos. Ocorre que assim como na sociedade de modo geral, a indústria do entretenimento é queerfóbica e não pode ser medida por uma simples questão de meritocracia.
É extremamente injusto e incoerente premiar atores brancos, heterossexuais, cisgêneros, ricos e famosos por interpretarem personagens marginalizados enquanto atores que vivem na pele esse preconceito são afastados de grandes produções pelo simples fato de sua orientação sexual.
Bem verdade, essa situação está mudando nos últimos anos, mas está longe de ser perfeita, principalmente quando se trata de outras letras da comunidade, como transexuais. Boa prova é o infame papel dado em The Danish Girl a Eddie Redmayne – ator cisgênero que, por sinal, exagerou nos trejeitos e mesmo assim levou uma indicação ao Oscar.
Em oposição a essa visão higienizada da história temos exemplos positivos, felizmente, como a série Pose, que trouxe mulheres negras trans na linha de frente e arrasaram. Elas são a prova de que uma história pode ser muito bem contata por nós mesmos, basta que se dê oportunidade.
Voltando à questão gay, a ânsia do público para saber se os atores integram de fato a comunidade queer muitas vezes gera atrito. Sim, todo ator tem direito a uma vida privada e deve-se respeitar o que essa pessoa decide compartilhar abertamente. Entretanto, é preciso entender que para quem já foi muito hostilizado na vida apenas por ser quem é, ver uma pessoa que foge do padrão heteronormativo fazendo sucesso na tela é tão importante quanto a história contada. Ter um Irandhir Santos, que é casado com o professor Roberto Efrem Filho, com grande destaque no horário nobre da maior emissora do Brasil é reconfortante, dá orgulho e esperança.
A questão da representatividade mostra que a indústria está mudando de fato, não apenas usando nossas mazelas para lucrar. Logo, enquanto não há igualdade no meio, atores heterossexuais devem, sim, dar espaço para que artistas queer brilhem com nossas histórias.

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