Uma família síria disposta a fugir dos horrores de sua terra natal. O sonho: chegar na Suécia, onde um parente os espera. O empecilho: a própria Europa.
O filme polonês Zielona granica, com nome em inglês de Green Border, é um soco no estômago. O drama da cineasta Agnieszka Holland foi premiado em 2023 no Festival de Veneza e se inspira em eventos reais ocorridos na fronteira entre a Polônia e Belarus em 2021.
A película, com cerca de duas horas e meia, acompanha o drama de refugiados tentando entrar na União Europeia, bem como ativistas que tentam ajudar essas pessoas e um policial polonês que tem problemas em lidar com as atrocidades que ele mesmo comete no trabalho.
Enquanto Aleksandr Lukashenko, presidente de Belarus e aliado de Putin, se esforça para encher a fronteira de pessoas tentando atravessar ilegalmente, o governo de extrema direita da Polônia contra-ataca as jogando de volta para o país vizinho — e a palavra jogar não é força de expressão, em um dos momentos mais dramáticos uma mulher grávida é arremessada para o outro lado da cerca.
No meio desse jogo político e xenófobo, vidas humanas são tratadas feito animais indesejados, um contraste gritante com a cena final, tempos depois, quando a Ucrânia é atacada pela Rússia e os ucranianos — leia-se aqui brancos — são recebidos de braços abertos pela comunidade europeia.
A obra choca, mas não passa de apenas mais uma constatação de que a Europa gosta de se vender como berço da civilização moderna e da civilidade, mas continua a manter sua riqueza a base de muito sangue.
Os horrores da borda terrestre deste filme não são tão diferentes da marítima no Mediterrâneo, onde milhares perecem em busca de uma vida mais digna.
São seres humanos vindos de países colonizados por europeus, que tiveram seus territórios fatiados, suas riquezas exploradas e saqueadas, suas vidas escravizadas. Em retorno, precisam se contentar com a miséria e a repressão.
O saldo da colonização europeia é tão terrível até hoje que basta lembrar, por exemplo, que muitos países que perseguem a comunidade LGBTQIA+ atualmente têm leis que remontam à época que foram dominados por nações do norte global que trouxeram consigo a moral perversa do cristianismo — lembre que a maioria dos países que formam a Commonwealth, com ex-colônias do império britânico, criminalizam vidas queer.
É também importante pontuar o papel dessas mesmas nações europeias, hoje, no genocídio do povo palestino. O império britânico traiu árabes no passado, antes da ONU dar sinal verde para a criação de Israel, que resultou em limpeza étnica, conhecida como Nakba, e hoje o Reino Unido é cúmplice, ao lado de Alemanha e outros países, na política de morte levada adiante pelo reacionário Benjamin Netanyahu.
A mentalidade de colonizadores persiste até os dias atuais de diversas formas, como quando empresas europeias inundam o Brasil com venenos proibidos por lá.
Zielona granica é uma história focada num drama específico, mas que levanta um questionamento mais amplo: a Europa um dia poderá ser perdoada por tanta dor que impõe ao resto do mundo, em especial o sul global?
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